Frederick Pallinger: um ilustrador da vida selvagem

Frederick Pallinger começou profissionalmente na área em 1991, cobrindo férias de um ilustrador do departamento de artes do SBT. O trabalho que acabaria em 30 dias se estendeu por 7 anos. Muito do que Pallinger desenvolveu no canal de TV não era focado em ilustração: direção de câmera, filmagem, fotografia e revelação em filme preto e branco. Mas ganhou muita experiência e atendeu programas de Silvio Santos, Gugu, Hebe, Mara Maravilha, Eliana, TJ Brasil com Boris Casoy e Aqui Agora.
Nesta semana, a SAIBADESIGN teve o prazer de entrevistar o ilustrador que comparece no dia 04/02 no Sábado Criativo com a palestra Ilustração Digital.
Você atua na área há bastante tempo. Quais as mudanças que afetaram sua profissão nestes mais de 20 anos?
São 21 anos na profissão de ilustrador, mas depois de minha saída do meio televisivo, parti para a publicidade e trabalhei de 1998 até 2009 em agências de publicidade. Pouco depois de sair do SBT o mercado de ilustração estava em baixa e a fotografia em alta. Foi um grande desafio: competir com essa outra arte. Outro desafio foi a digitalização do ofício. Em 1998, quase todas as agências por onde passei tentando emprego estavam atualizadas e usando computadores para fazer layouts e finalizar as suas campanhas. Na época, eu tinha noções de computador, mas de programas bem diferentes que eram utilizados para TV. Foi aí que tive que aprender a trabalhar com os programas utilizados em agências na época: Adobe Photoshop, Corel, Pagemaker. Essas duas transições — da TV para a publicidade e do manual para digital foram as mudanças mais marcantes.
O que te inspira? Quais os artistas você admira e como você recarrega as baterias antes de começar um novo trabalho criativo?

Ver uma boa ilustração hiper-realista, tem que ser bem acabada, cheia de detalhes, mas sem exagero nas cores, também sem ser muito sóbria, que tenha movimento ou seja sutil com suavidade – fazer transparecer leveza é o mais difícil, e pra mim isso é um desafio. Alguns artistas que eu gosto, são Boris Vallejo na área de HQ e outros (fez muitas capas do CONAN), e dos artistas de vida selvagem: Manuel Sosa, Daniel Smith, Aldo Chiappe, Nigel Shaw, o que mais admiro e me inspira é o britânico Andrew Ellis. Como sou um ilustrador de vida selvagem, saio a campo, vou observar aves. Existe a pesquisa em zoológicos e em museus coletando dados científicos nas peles de animais taxidermizados, algumas pessoas acham meio tétrico pegar o bicho empalhado na mão e acabam ficando meio receosas, mas eu já me acostumei e para mim é um mal necessário. O legal é pegar como base algo que está morto e conseguir ilustrá-lo como se estivesse vivo.

Em seu portfólio há trabalhos comerciais e artísticos, como as telas que você vende dentro e fora do Brasil. Qual trabalho traz maior satisfação, o comercial ou o artístico?
Acredito que ambos trazem satisfação— mas de maneiras diferentes. No artístico, você está atendendo a um cliente que admira seu trabalho e  quer ter em mãos uma obra sua, o que sem duvida é a valorização da sua arte. O comercial traz outro tipo de reconhecimento: o de satisfazer as exigências do cliente, é mais como um desafio, importante para qualquer profissional. Um traz o prazer de pintar, de estar inspirado, mexe com o lado mais sensível, o outro, traz o desafio de agradar ao cliente, captando o que ele está pensando e deseja, atendendo suas expectativas.
Além da ilustração, você trabalha com controle ambiental, utilizando aves de rapina. Explique um pouco como você começou nessa área e como isso funciona.
Sim, o controle ambiental com aves de rapina funciona da seguinte forma, uma fábrica que não pode ter pombos (em função das doenças que essa ave transmite) em suas dependências, por exemplo, quando a empresa produz matéria-prima para atender a linha de higiene humana contrata minha equipe para realizar o controle biológico. Nesse controle, usamos os gaviões para afugentar os pombos na área externa e também dentro de galpões. Depois disso, seguimos fazendo patrulhas diárias, voamos com as aves de rapina em quase todas as dependências da fábrica e, num determinado espaço de tempo, os pombos começam evitar o local com receio de que serem predados. É um processo que pode durar de três meses até um ano nos casos mais graves, ou seja, infestações de pombos acima de 1500 indivíduos.
O manejo de animais, como é o caso da falcoaria, colabora no seu trabalho de ilustrador? De que forma?
Colabora muito mais do que somente vendo uma foto, ou uma pele de museu, ou mesmo uma ave dentro de um recinto, parada, com penas quebradas por causa de colisões dentro do mesmo, ou outro motivo.  Na falcoaria, uma ave treinada por esse método pode voar livre, fica dependente de você de um modo bem harmonioso, pois existe muita sensibilidade em seu manuseio, você a conquista, ganha de pouco em pouco sua confiança e amizade. Com isso, você pode observar as posturas típicas da espécie, posições das penas, ou seja, o comportamento da ave de rapina, todos estes detalhes  ficam mais acessíveis e um bom artista pode captar e passar tudo para uma ilustração.  Aprendi e aprendo muito a cada momento. Para pintar uma espécie você deve conhecê-la muito bem, e a falcoaria é uma ferramenta que beneficia a arte de pintar, foi uma experiência muito importante para o meu desenvolvimento na arte de ilustrar.
Quais os maiores desafios que você enfrenta na sua carreira atualmente?
Encontrar bons compradores para a minha arte, poder ganhar a confiança e um espaço dentro do mercado brasileiro e claro, que paguem pelo meu trabalho o que ele realmente vale.  Para mim, o reconhecimento veio de fora do Brasil. Estrangeiros viram minhas ilustrações em um site e encomendaram minhas telas, o que proporcionou uma boa divulgação para o meu trabalho fora do país. Mas aqui, brasileiros que compram arte preferem nomes mais conhecidos, badalados ao invés de preferir a qualidade da obra.
Você trabalha com pintura, tanto no meio digital como manualmente. Quais as principais diferenças entre um meio e outro?
Na pintura tradicional, utilizando guache, aquarela ou qualquer outro material, em papel especial ou em tela, o processo é preparar as cores, estruturar uma base, um fundo, após ter feito o traço da figura que irá ser pintada, entrar com os tons médios e escuros e por  fim os claros. A produção de uma ilustração “tradicional” requer conhecimento e noção das cores, habilidade e o principal: muita calma e paciência, pois qualquer alteração no seu humor pode pôr em risco toda a sua obra, e aí, para resolver só  retocando e nem sempre fica bom, sem contar que o tempo gasto nisso é grande. Na pintura digital, você poupa tempo: não acontece de estragar a sua tela por causa da falta de inspiração ou qualquer alteração de humor: simplesmente paro, salvo a imagem no HD (no meio digital, backup é fundamental) e retomo outro dia. Se erro, posso voltar no histórico no software.
A ilustração digital a princípio é parecida com a tradicional: você desenha o traço separado em uma camada, na tela, em um tamanho escolhido para este trabalho em alta resolução, retrato ou paisagem, em outra camada você usa as cores. A borracha acerta qualquer imperfeição do traço, e escolho o pincel digital que prefiro. Particularmente, eu uso uns dois tipos de efeitos de pincel, no máximo. Tamanhos eu vario bastante. No final você não faz sujeira, não precisa gastar dinheiro com tintas ou papel, se errar você apaga e faz de novo, pode separar fundo e assunto principal pra usar em outro produto (camisetas, banners etc). Você faz do seu produto vários subprodutos, a única desvantagem na pintura digital é que não é possível vender o original como ocorre com a pintura tradicional: o seu original é um arquivo virtual e isso desvaloriza o trabalho quando se trata do segmento artístico.
Quais os projetos para 2012?
Existem alguns projetos, um deles é um livro sobre aves de rapina da América do Sul, do autor Sergio Seipke, da Argentina, patrocinado por uma entidade norte-americana, a HAWKMOUNTAIN SANCTUARY, que está em andamento, são mais de 1.200 ilustrações de aves de rapina mostrando varias posições em voo e pousadas, teremos também sua idade ilustrada através da variação de plumagem no decorrer de um ano após o outro. O livro deve estar pronto em 2014.
Dê um conselho para quem está começando na área de desenho e ilustração.
Treinar bastante luz e sombra, perspectiva, aprender a desenhar vários assuntos. É importante saber desenhar de tudo um pouco, mesmo que de forma básica, e ser um especialista no que mais se gosta. Insistir sempre, ter humildade, pois sempre tem alguém melhor que você — o melhor a fazer é usá-lo como inspiração, e aprender com erros para, no futuro, acertar. Existe espaço para todos: tudo depende de sua força de vontade e determinação em evoluir na arte. Precisa investir nos seus interesses por que ninguém vai fazer isso por você.
Gostou do trabalho do ilustrador? Não perca a oportunidade de vê-lo ao vivo dia 04/02 no Sábado Criativo da SAIBADESIGN 🙂
Anúncios

2 Respostas para “Frederick Pallinger: um ilustrador da vida selvagem

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s